Às vésperas de completar um ano do espancamento que resultou na morte de Jerder Pereira da Cruz, de 35 anos, a Justiça do Maranhão ainda não conseguiu identificar ou responsabilizar os autores do linchamento ocorrido no bairro Novo Horizonte, em Paço do Lumiar. O caso, que gerou indignação pela crueldade das agressões, permanece em uma encruzilhada processual: de um lado, o inquérito que investiga as circunstâncias do óbito segue arrastado; de outro, o procedimento que apurava suposto crime de dano qualificado contra o próprio Jerder acabou arquivado em razão de sua morte.
O linchamento e a omissão
Na madrugada de 27 para 28 de outubro de 2024, Jerder, em surto psicótico por conta da esquizofrenia, correu nu pelas ruas até invadir uma igreja evangélica, onde quebrou equipamentos musicais e portas de vidro. Cercado por populares, foi amarrado e espancado até a chegada da polícia e do SAMU. Levado ao Hospital Socorrão II, não resistiu às múltiplas lesões, sofrendo três paradas cardiorrespiratórias.
Vídeos que circularam nas redes sociais mostram o momento em que ele tenta fugir de agressores e é contido dentro da igreja, ensanguentado e em estado de vulnerabilidade. Para a esposa, Fabiana Louzeiro, a tragédia poderia ter sido evitada se a Polícia Militar tivesse agido ao primeiro chamado. Segundo ela, ao pedir ajuda, ouviu que “não era caso de polícia”.
Dois processos, nenhuma resposta
Dois caminhos judiciais foram abertos. O primeiro, instaurado pela Delegacia do Maiobão, buscava apurar suposto dano qualificado praticado por Jerder ao invadir a igreja. Esse inquérito, contudo, foi encerrado com a extinção de sua punibilidade, já que o réu faleceu em decorrência do próprio episódio.
O segundo, mais importante, é o que investiga o linchamento. Distribuído em janeiro de 2025 na 2ª Central das Garantias de São Luís, ele segue sem conclusões efetivas. Até o momento, ninguém foi preso ou indiciado. A viúva tentou se habilitar como assistente de acusação, mas a Justiça indeferiu, alegando que tal participação só é possível após o oferecimento da denúncia. O Ministério Público, por sua vez, apenas acompanha o andamento sem apontar responsáveis.
O peso do silêncio e da demora
Enquanto os autos se arrastam, o sofrimento da família aumenta. Fabiana ficou viúva com três filhos pequenos — um deles autista e uma menina que sequer chegou a conhecer o pai. Hoje, ela clama por justiça e afirma ter recebido o marido já “todo quebrado, cheio de hematomas e sem dentes”.
A morosidade judicial reforça a sensação de impunidade. Quase um ano após a noite trágica, a morte de Jerder segue registrada apenas como “morte a esclarecer” nos documentos oficiais. Para a família, no entanto, não há dúvida: houve omissão das autoridades e um linchamento cruel que ceifou a vida de um homem em crise, mas que merecia tratamento digno, não execuções sumárias.


